Tuesday

o que o tempo apagou.

Faria exatos três anos em uma semana. Três anos desde a última vez em que pus meus olhos nos seus olhos verdes e meu corpo inteiro junto ao seu pedindo proteção. Pensei em comemorar sozinha, abrir uma garrafa da sua bebida preferida e sentir de novo o mesmo gosto amargo que um dia me fez tão bem. Brindaria a nossa história com as paredes e assistiria a um pouco de tv. Tinha tudo planejado. Mas ontem eu entrei sem querer naquele lugar comum com tanta gente estranha e esqueci que você podia ser uma delas.

E aí reconheci, em menos de três segundos, os cabelos loiros caindo pela nuca, aqueles que vinham encontrar a gola da camisa azul que já era sua naquela época. Pensei em sair dali assim que te avistei, mas você se virou como se percebesse a minha presença e tal qual um velho amigo, sorriu... atenuando o verde escuro dos olhos que eu dia eu conheci tão bem.

Você não estava tão alto, nem usava mais a barba clara que iluminava todo seu rosto. Não pairava mais sobre todos os homens, como o ser independente, inatingível e sublime que costumava caminhar ao meu lado. Você não estava mais sozinho e talvez por isso tenha me deparado com um você mais humano.

Conversamos pouco, como sempre, nos entendemos muito, melhor que ninguém. O ar didático das suas palavras me fez sorrir por lembrar o quanto você me ensinou. Mas me mudou e me deixou sozinha. E o encontro, que durou não mais que três minutos, me fez rever por completo os três meses ao lado seu. Três minutos que selaram cada segundo da nossa história. Nós três ali. Meros conhecidos.

Porque ao lado dela, da outra, a sua figura era disforme, vazia.. tão comum. Mas talvez fosse assim também se você estivesse sozinho. Acho que a sua nova imagem só me atingiu de raspão: não me fez feliz por você ou triste por nós dois. Não fez nem de fato uma ferida, no máximo um machucado leve que logo vai cicatrizar.

Porque ontem eu tive certeza que o meu amor já não era mais seu.
E eu pude enfim dizer adeus ao que um dia me fez feliz.

quando dois são nada

Era sempre dia. Eles eram sempre noite. Eram dois e às vezes, por diversão, um só. Ela descobria a vida nele. Ele, por sua vez, buscava nela um último sopro de juventude. A Glória era cúmplice e o apartamento antigo, cenário. Ele tocava guitarra, ela dançava ballet. Dez anos separavam suas palavras, seus livros lidos e viagens feitas. Dez longos anos que pareciam dez meses quando, deitados, conversavam sobre a vida. Ela ousava um beijo enquanto ele desejava amor vazio. Porém, sentiam a mesma dor. Ela queria tudo, ele deixava a vida dar conta. Ela chorava. Ele lia o jornal. Ela foi embora. Ele tem um novo amor. Ela ainda chora. Ele se casou.

Sunday

Para J.

Meu querido J.,
Você sabe bem que compartilhar o que eu sinto e o que tenho nunca foi tarefa fácil. Só que ontem eu vi você assim, tão solícito e aberto, que me fez abrir também o meu coração e tudo aquilo o que me é mais caro: o meu amor. Talvez as coisas tenham caminhado pro lado errado. Talvez eu mesma não tenha sabido dar todas as direções corretas.. Mas você procurou fundo e achou o que estava no escuro, e por não ver direito, acabou se ferindo - e nãoo fez sozinho.
O que você pensa do amor, J.? Você o vê como algo que pode ir além de dois? Ou é como todos os outros homens do mundo, que talham o amor por instituições e regras rigorosas que não valhem absolutamente coisa nenhuma? Eu sei, querido J., que você sente ciúmes. Mas ciúmes do que? De uma vida que não pertence a você? De uma liberdade de ir e vir que não pode ser de mais ninguém?
J.. não me deixe te ver triste assim por tudo aquilo que eu te dei. Você não pode cortar as asas e o manto que eu cismo em desenhar em mim, achando que tudo de errado que eu faço será compreensível para aqueles que eu deixo que me rodeiem. Eu não aprendi a amar um homem como a mulher que eu já deveria ser, você percebeu? Meu amor é infantil a ponto de ter em mim o mundo inteiro e ainda assim, não ter ninguém.
Talvez eu me fantasie de aparição, nobre e sublime como eu nunca, nunca serei em toda a minha vida. Só que enquanto não houver um homem que saiba cuidar da criança grande que eu sou, a menina que vive em mim vai brincar de adorar o mundo com a ingenuidade que lhe é permitida - aquela de quem sente a dor do vazio da vida apertando o próprio peito e chora... chora porque vai dando a hora de dormir.
Espero que entenda que o nunca não existe pra mim.
Com amor,
K.

Tuesday

quando as palavras tornam-se maldições

Quando as palavras tornam-se maldições, não há outro alguém que as apague. Não há briga que as fragmente e esconda os pedaços em um canto qualquer da memória. Não. Quando as palavras tornam-se maldições, elas ecoam por todo e qualquer lugar. São sussuradas pelos dias vazios e gritadas em desespero nas madrugadas insones. Revivem sem piedade em todos os lugares que se costumava frequentar, pintando de um só preto-e-branco tudo aquilo que um dia foi repleto de cor. Quando as palavras tornam-se maldições, nem outras palavra são capazes de explicá-las. E, quando emudecem-se os sons que tiram os pesadelos daqui, não há mais benção que traga novamente o pouco de paz que se perdeu.

25.10

Tocaram-se. Sentiram-se. Sentiram o mundo, o outro. O mundo no outro. Eram dois universos inteiros ali, sentados. E assim como para duas crianças que descansam no fim da correria, o meio-fio era, naquele instante, o lugar mais confortável que poderia existir. Era, talvez, porque havia alguma atmosfera assim, quase que própria, quase que mágica envolvendo os dois... Ela sentia.

Desmonstrava confiança nos olhos, embora seu corpo hesitasse. Era certo? Eterno? Era vulnerável. Tinha as mãos frias e os gestos inquietos de quem, até então, só sabia o que era ser só. Desta vez não estava sozinha. Todas as suas palavras também relutavam - nunca fôra mesmo fluente, como poderia o ser agora? Mas, embora não conseguisse dizer, repetia incansavelmente dentro de si que nenhuma voz, a não ser a dele, era digna da circunstância. E seria ela? Não sabia ao certo. Porém, orgulhava-se, timidamente, ao lembrar-se que ainda era capaz de proporcionar momentos assim ao seu coração...

Eles trocaram olharem, carinhos. Observaram-se como nunca antes. Eternizaram cenas. Tornaram-se quadros.
Na memória dela, eram arte.
E nada, jamais, conseguiria ser mais belo.

O retorno

Guiou os passos com firmeza. Mesmo depois de tanto tempo, aquele lugar ainda parecia familiar. Poderia dar mil voltas, mas acharia a rua sozinha dessa vez. Queria reconhecer a esquina, a banca de jornal, o vendedor de livros usados, a grade verde.. Queria manter o sorriso tímido no rosto, daqueles que brotam quando retornamos aos lugares presos na memória e sentimos o conforto de reconhecê-los do jeito que os deixamos. O dia também estava agradável e, apesar de já ser inverno, sentia o mesmo frescor da primavera em que se conheceram. Esperava a ocasião perfeita. Dessa vez, tudo ao redor voltara no tempo junto com ela, junto com aquilo que um dia já foi capaz de sentir. Não poderia ser melhor.
Ele também não havia mudado, não naquele dia. E o alívio que ela sentira ao vê-lo novamente com a barba que costumava deixar era indescritível - queria agradecer por adivinhar seus pensamentos, mas resignou-se a olhar e sorrir. A bagunça no apartamento era maior, mas nada que já não imaginasse. Sabia que, em geral, o ambiente reflete o espírito daqueles que o possuem. Ele era a bagunça e ela queria ser uma parte disso - o suficiente pra recomeçar
Fingia ser a primeira vez. Aquela do abraço apertado, dos olhos marejados, do coração batendo. Ou a do beijo perdido na escada dos espelhos. Estava ali de novo. Era a mesma esperança e seus gestos não negavam qualquer intenção. Era dele, sempre fora. Fazia-se somente do óbvio que transparecia no nervosismo, nas poucas palavras inúteis. Porque não se diz o que já se sabe. E ele já sabia.
E por isso era o condutor. Ditara as regras incomuns que a fizeram voltar pra lá. Mas ela não se preocupava mais com o caminho que percorrera ou com objetivo final. Não sabia nem se sequer havia algum objetivo. Estava ali e só. Fazia parte do jogo, da fantasia, da revanche. Porque o bilhete da rejeição ainda era um pedaço do mesmo passado, mas finalmente começava a ser distanciar. A mancha desaparecia a cada beijo, na proximidade absoluta dos dois. E, enquanto deixava que ele mesmo descobrisse que estar de volta era tudo o que importava, ela rearrumava a sua trajetória na história a ser contada. Reinventava a ordem, apagava noites, silêncios e discussões. Começava a escrever um outro texto, aquele com as palavras que ela queria, com as palavras que ele já sabia - as que talvez nunca serão ditas, ou serão repetidas tantas vezes até se tornarem banais. Porque ela voltara para onde nunca deveria ter saído. E não sairia outra vez, já não era capaz.

Sobre Nada

Sei que me falta assunto frequentemente, simplesmente porque a insignificância das minhas palavras nunca vai mudar a vida de ninguém. Infantilmente, ainda me perco em tantos atalhos e direções. Meus olhos procuram alguém com quem crescer, talvez. Procuram um lugar que eu possa chamar de minha casa enquanto não quero morar em lugar algum. Eu vejo a ignorância transparecendo em mim. Alguém me diz? Como tudo isso funciona, como assim? E quantos livros consigo ler até amanhã? Gosto quando o silêncio me toma pela mão e diz que tenho poucas cicatrizes na alma, poucos anos de vida e poucas paixões no coração. Mas não diz que meus sonhos são impossíveis, ao menos. Não destrói o castelo de cartas coloridas que construo dentro de mim. Eu só sei é que se eu for encarar a vida de frente, ela vai me pisotear. Tenho medo de abrir os olhos, pisar do lado de fora, tocar sua campainha e dizer "o que há aí em você?" se eu não sei nem o que há em mim. Nem mesmo sei como essas palavras vão se auto-desenhando pelas minhas mãos. Não me orgulho em observar tudo o tempo todo, como se brincar de big brother ensinasse como a vida funciona. Seria muito útil se um anjo sussurasse "viva moça, você faz parte do mundo" e me fizesse parar de pensar que eu só estou aqui pra admirar essa gente que ri, chora e trabalha. Eu estou aqui pra ser uma delas.

se eu não te procuro...

(...) mas aí vem o som e a lembrança e as imagens que um dia eu tive aqui. E fica tudo escuro de novo e só me dá vontade de gritar. Às vezes eu grito, mas grito pro meu travesseiro. Ele abafa a agonia que eu sinto e tenho vergonha de mostrar. E a quando a calma chega, eu disco o seu número devagar. Mas nunca, nunca completo os últimos dígitos. Finjo que eles não existem. A ligação corta, eu culpo a linha e desligo... que é pra você nunca me ouvir assim.

Outro dia

Estava exausta. Olhar para os lugares-comuns de sua vida já lhe revirava o estômago. Nascera neste pais de mulatas, de praia e de samba e de muito calor. Odiava o calor. Queria ler, mas era impossível pegar num livro sem que derretessem todas as páginas. De qualquer maneira, tinha mesmo pouco tempo. Resolvia as questões do trabalho enquanto lavava os cabelos que queria deixar crescer - e talvez pintá-los novamente de vermelho. Já havia sido ruiva uma vez, mas enjoara desta cor. Aliás, o visual unhas-curtas/roupas-simples/rosto-sem-maquiagem já havia lhe rotulado há muito. Não por querer, mas por ser assim, afinal. Jogava-se na cama logo após chegar em casa, sentindo pontadas de culpa por descansar. Era tanta coisa pra preencher seu tempo que continuava vazia no coração. A grande verdade é que era egoísta no que dizia respeito aos seus amores: queria apenas um, além da vida. Queria ser livre pra amar a hora que bem entendesse, da maneira mais devassa e verdadeira possível. Inconsequente, sem culpa, sem pudor. Amar. Comum e exagerada, ela sempre se achava afundada em uma longa saudade das poucas horas em que fora feliz. E sofria em silêncio. As quatro paredes de seu quarto a envolviam num afetuoso abraço quando não havia ninguém para trazer palavras de conforto - era o único modo de seguir em frente. Se preocupava com tudo enquanto fingia nem ao menos se importar. Se preocupava demais. Chorava demais. Fingia ser feliz demais. Estava exausta.

O último baile

Era a mesma música. As mesmas teclas do piano ressoavam no quarto. A melodia conhecida os deixava à vontade e o som que preenchia o ambiente fazia com que os anéis que carregavam na mão esquerda fossem realmente um par. Verdade ou não, preferiam não ter certeza. Não importava. Nada mais importava ali. O mundo se resumia aos dois, ao quarto, ao toque, ao gosto. A garrafa de vinho estava em pé ao pé da cama, mas as taças derrubadas desenhavam uma fina linha cor-de-vinho no tapete - não era só na memória que aquele dia ficaria marcado. Dançavam ao som da velha canção. A sintonia dos corpos era inexplicável. Não era preciso dizer, comprendiam-se aos sussuros incompreensíveis. Eram entrega, e só. Fizeram-se tudo um do outro, num lugar onde nada nunca será de ninguém. Desafiaram a luxúria num dia em que até deus confiaria aos dois personificações puras do amor. Dançavam. Não se sabe quem conduzia quem, ou mesmo se alguém era o conduzido. Se eram dois, se havia identidade, tudo ali era inútil. Tudo ali justificava os anos e as derrotas, e os olhos umedecidos diziam em silêncio o que os dois já sabiam: essa noite seria o ápice de suas vidas. E não queriam pensar no declínio, não importava mais.

Monday

24/12/06

Fechou os olhos e começou a dançar. Queria sentir a música passeando pelo corpo.. o cabelo úmido, a ansiedade familiar. Exibia toda a sua (in)segurança com um copo de vodka e uma pose inadequada de quem acha (e só acha) que já cresceu. Era sua primeira noite longe de casa e da cama, e por ironia do destino (que fazia graça de tudo), era madrugada de 24 de dezembro. Malditas coincidências da vida. Se fosse qualquer outro dia...

Mas não era. Estava ali pra provar que podia suportar o cheiro, as luzes e o ruído da noite. No entanto, era apenas a mesma criança assustada de alguns anos atrás - e que em noites assim, não sabia lidar com nada além do velho travesseiro e uma insônia ingênua, fruto de um presente grande na árvore de Natal.

"Maldita noite de Natal." E ela dançava e dançava enquanto as lágrimas denunciavam que pensamento não estava ali. "Ele vem pela janela, mãe?". Por que traíra a si mesmo? Por que abadonara o único lugar do mundo em que se sentia segura? Por que logo naquele dia? Pra que?

E ele nem a vira dançar...

Se esbarraram uma vez no meio da noite. Ela, de tão sem graça, puxou o ar tão forte que chegou a sufocar. E fingiu um brilho nos olhos que o semblante decadente insistia em apagar. E se o sorriso foi por um minuto falso e se o abraço foi tão sem jeito, era porque se sentia divida entre inocência perdida e a insegurança constante que a sua presença constumava denunciar. Ela estava ali abrindo mão de tudo o que restara da infância, por ele e só por ele.

E nem um abraço em retorno...

Sentiu o coração apertar. Virou as costas e pegou outro copo dessas bebidas com gosto de remédio. Jogou os cabelos pra trás, sem mais se incomodar com os fios que ficam presos na nuca. Aquele lugar cheirava a gozo e dava dor de cabeça. Subiu com passos apressados pra fugir dele e da multidão (dava passos apressados pra fugir do mundo inteiro). Sentiu a música, mas não a reconheceu. Os sons passeavam novamente pelo corpo e já encontravam abrigo no vazio das sensações. "Onde ele está?"

E era madrugada. E já nem era Natal (já não havia mundo sequer) O gozo. A árvore. A pose. A respiração faltava, a insegurança sufocava. A cabeça doía . Ele estava em algum lugar por ali. Recomeçou a dançar.

Mas ele nem viu.

Thursday

abrindo a casa.

bem-vindos ao irreal absurdo da vida.